terça-feira, 22 de abril de 2008

Como balão

Inspirar.
Inspirar lenta. Inspirar profunda.
Encher os pulmões de ar.
Cada pequeno espaço, encher de ar.

Inspirar. Tudo por dentro se transformar em ar.
Inspirar. E que o ar transcenda.

Inspirar. Permitir-se que o ar transcenda.

Inspirar. A carne virar ar. O sangue virar ar. Brisa interna.

Inspirar. Inspirar. Inspirar.

Quando tudo for ar, explodir.

E ser ar.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Apontuado

Devo ter nascido nas redondezas de um advérbio incerto, no meio de uma afirmativa prolixa, “hiperbática” e tetricamente subjuntiva; deslocado e sem vírgulas. Solto. Não influindo, talvez confundindo (pouco). Ah, mas, graças!, não foi um de modo, com todas as suas mentes. Foi um daqueles discretos: ao certo, não deve ter sido notado.

Tivesse nascido eu antes de uma exclamação, num grito de fúria, ódio ou alegria! De impulsividade.

Ou ainda na pura prepotência de uma interrogação.

No unilateralismo de um após travessão.

Por baixo, que tivesse nascido no exíguo espaço entre duas vírgulas quaisquer, no espaço místico das aspas aladas ou no aconchego dos braços dos parênteses. Numa última opção, me equilibrando sobre um ponto e vírgula.

Queria mesmo o pico de uma vírgula obrigatória, de um ponto parágrafo ou de um ponto final e fim.

(suspiro)

Pois que fosse, logo e então, oriundo desgraçado da insaturação de uma frase reticente...

quinta-feira, 6 de março de 2008

A senhora, o cinza e a rima




A um olhar de distância, no outro lado da rua, a senhora anda. Apenas tons de cinza. O oco dos seus sapatos marrons contra a calçada de concreto seriam ouvidos, não fosse a prosopopéia de pessoas, prédios, carros, sinaleiras e seus ruídos próprios e alheios. Seu vestido reto, cor de grafite. A bolsa a tiracolo. Os cabelos grisalhos presos num coque. As rugas profundas. Os passos firmes, numa lentidão (típica dos anos), numa rapidez (típica dos vívidos), numa objetividade (típica dos ressurgidos). A quase corcunda nas costas, de palmeira que não enverga. Sob o pano grosso do vestido, as correntes, os fantasmas, as contrações, as cicatrizes, as brumas, os poucos sóis, os sangramentos, os poucos vermelhos, as poucas feitiçarias, as sombras, as (não) umidades, as flores murchas e desidratadas, as cinzas e as queimaduras do antigo charuto.

Ao longo da rua, carros estacionados, placas elevando-se do chão, transeuntes multiplicando-se. O prédio em negrito branco, desbotado e sujo, com seu amplo vão de entrada. O tapete puído e pisado. A livraria-café se abrindo à direita, bem a frente do prédio; sua ampla janela, e as cabeças entre os livros. Emanações de cheiros insípidos.

A senhora pára (uma exclamação abortada). A cabeça gira, analisa. Entra na livraria e foge do olhar. Eras depois, sai como entrou. E segue.

Logo após, um rosto jovem e amarelo salta do prédio. Esquerda, depois direita. Vê, ao longe, o coque grisalho por entre orelhões e postes e gentes, afastando-se. As pernas cumpridas, finas e desengonçadas põem-se a correr. O avental atrapalha. Ofegante, alcança-a. Ele toca-lhe o ombro. Ela vira (num virar de cadeira pesada sobre chão de madeira antiga). Ele entrega aquilo que levava em suas mãos, ainda quente. E fala. E o que diz se ouve:

- Senhora, deixaste cair tua rima.

Um sorriso de flor amarela. Uma explosão. Mármores e granitos rolando.

- Finalmente nasceu. Idéia velha... Trabalho de parto de mais de uma hora (que deveria ter sido gasta com a caracterização da associação actina-miosina em funções contráteis). Mas, tem nada não. =P

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Mas a Chuva cai no dia Santo

A Chuva deveria ser proibida de cair em dias Santos.
Naqueles dias Santos de alegria a todos. De alegria às famílias e aos amigos. Em que saem às ruas, comemoram, bebem, dançam; alegram-se.

Esqueceram de ensinar a Chuva de que só deveria cair nos dias de despedidas; nos dias de velório; nos dias de final de amor...

Mas a Chuva cai no dia Santo.

Meu caro amigo (ou minha caríssima amiga), apesar de todos os satélites, e estudos, e institutos tecnológicos, e aparelhos metereológicos, o Céu, querido(a), este continua um mistério insondável.

A Chuva cai no dia Santo.

O Céu se enche de nuvens disformes e sem cor. Não são escuras (carregadas), nem amigavelmente claras. São indiferentes e tristes. O ar esfria. O mundo turva-se. (Sairia uma neblina.) Não se sente o cheiro da terra molhada. O raio, o trovão, o relâmpago ficam contidos no âmago das Nuvens. O Vento percorre os caminhos levando as folhas caídas. O horizonte... A Chuva cai no dia Santo por causa do horizonte.

E o mar não reflete as Nuvens. Não porque não queira. As Nuvens que não querem: viria aquele sentimento de auto-piedade, misturado com uma angústia, um medo e qualquer coisa mais, que só faria a Chuva cair sofregamente.

A Chuva ameaça. Faz tremer. Desanima.

E nem o sol mais fraterno dissipa a iminente Chuva. E, talvez, nem o sol mais dourado e amado fá-la-ia desaparecer.

A Chuva não deveria cair em dias Santos.

Mas ela cai. E não cai com a força das tempestades do Norte; nem com a sutileza da garoa. Não limpa as ruas, nem as inunda.

Cai. Molha.

Quem poderá explicar à Chuva de que não deveria cair em dias Santos?


- E depois não vem arco-íris, mas algumas poças e um tanto de barro. O barro que talvez assuma um tom verde.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Flor-de-Papel


Sobre a parede imaculadamente [branca
desgraçadamente imaculada

(versos semi-feitos)

Desponta o mais rosa.
Pequena princesa presa, sois [papel?
papel de arroz? que desmancha [na chuva?

- Papel Seda. Tal Pipa que voa.

Mas não voa, solitária.
Queres voar? Dependura-se no muro para voar?
Queres sol?

- Já tenho sol.

Mas então?

- Olhos(!)

Poucos te vêem? Atrás dos pregosbrancosdeespantarladrões.
(Nas estradas por que passei, suas irmãs são mais felizes?
Derramam-se sobre os ares, hirtas de rosa.
Basta olhá-las e vê-las.)

Nasceste presa. Longe dos olhos. (sinto por ti)

- Jogo minhas tranças. Hão de alcançar-me com olhos famintos de [beleza.
Meu rosa é menos rosa que o delas?

Oh, pequena Primavera, tão frágil quanto o papel de que é feita.
Derrubar-te-ão

- Cabelos crescem.

Oh, pequena. Nessa calçada? Por quais olhos?
Olhos que se abaixam por ‘cuidado’?

- Me viste, não viste?

Pois sim, pequenas Marias.

domingo, 2 de setembro de 2007

Como vive – Domingo


- Dia do descanso. Primeiro dia de trabalho (gênesis) – deve ter sido o verbo.

I. Acorda-se cedo ou acorda-se tarde. Stress! Horas pra sair de casa, atraso. Vai-se à praia. Bebe-se cerveja, Coca-Cola Light. Passa-se Sundown – esquecem? Acarajé completo, sem pimenta. Outro, baiana: com pimenta agora. Camarão pequeno. Há há. Biquíni bonito. Queijo – 2 reais – faz 2 por 3? – eco – hm – quer?


II. Vai-se ao comida a quilo, o de sempre, por favor. Fila. Senha. Senta-se, levantam-se dois, faz-se o prato. Não falta: arroz, batata-frita.


III. Shopping! GOD. Oh, God. Shopping! Bate-se perna, roda-se. Compra-se, deseja-se (claro). Delicia-se com a deliciosa batata-frita, com o delicioso Mc-algo, com a deliciosa Coca-Cola – Coca-cola! (Entre dentadas insanas: o orgasmo hamburgural). Enquanto se come, come-se apenas. E olha-se, mas não se vê. Agora, cinema. Ou antes de comer, cinema: mas que dúvida: a Fome (Fome, ok?) responde-a. Cine, sejamos sinceros.


IV. Em casa: Faustão! Dança do gelo, gente, Faustão. Muda o canal: tira dessa bosta (Gugu)... Perae, no 5... hahahaha. Faustão. Logo: Fantástico: silêncio: Fantástico. Filme no 4. Abaixa um poquinho sua tv.


V. Sozinho? Pega-se o carro e vai-se a um posto de gasolina, onde se bebe uma lata de cerveja, no meio da noite. Uma lata de cerveja, duas. Romântico como no Romantismo.


VI. Tarde da noite, entra-se no orkut.

Vive. (algo mais?)

sábado, 14 de julho de 2007

Doces Versos

Ainda não era tarde. Os passos espaçados e ritmados indicavam a pressa daquele que carregava os livros. Um grande volume de livros, verdadeiros alfarrábios de tão grossos. Todos empilhados e apoiados em seu tórax, dificultando de sobremaneira sua caminhada, que mesmo assim era rápida.

Conseguiu, com certo esforço, livrar a mão direita e retirar da pilha o primeiro livro. Era de poesias. Estranhamente, apesar de ser um dos maiores, parecia ser o mais leve. Folheou-o, parando em algumas páginas com poemas curtos. Leu-os, deliciando-se.

Os olhos corriam por cada verso; a alma voava com cada verso.

Recolocou-o na pilha de livros, depois lê-lo-ia com mais calma e atenção.

Seguia. Mas queria parar e perder-se naquelas palavras, naquela Pasárgada – onde tudo era sentimento... sentimento,

Onde tudo era Sol, era Lua, eram pássaros e eram meninas, eram caracóis, eram pãs e ninfas, eram luvas e eram nuvens altas, eram pombos e estrelas, várzeas e sapos, trens e balões, eram isso e aquilo, flores e pica-flores, eram reis e rainhas, copas e paus, barcos e impérios dilatando-se, eram condores e praças, amores que queimam, eram bailes e hálitos virgens, eram braços sagrados, r(R)osas e Marílias, cantos e ventos, céus e almas, era Deus, eram noites e dias e tardes e frias madrugadas, era campo e cidade, vida e morte, era Liberdade, era era era, eram eram eram

E atenção!

Um pé invisível (do Destino, quem sabe? Ou da própria Vida.), repentinamente, antepôs-se a sua marcha. Desequilibrou, tropeçando; os livros fugiram de sua mão em direção ao chão.

Na fração de segundo do acontecimento, chegou a pensar que aquele livro de poesias – tão leve, tão cheio de amor e sentimentos, tão cheio de rimas e métricas e licenças poéticas e arte, tão cheio de leveza – chegou a pensar que não cairia. Planaria no ar, como se ganhasse asas, minúsculas e milhares, do tamanho de cada palavra ali escrita, asas de flamingos e garças; planaria no ar e pousaria suavemente a alguns metros.

“Vê, pequeno.” Numa conjunção adversativa, da dura gramática, os calhamaços foram, todos, ao chão, como suicida desgraçado que se atira do nono andar de um antigo prédio. Caíram todos, rimando na realidade (pura prosa) da gravidade.