sábado, 13 de setembro de 2008
Somos meninos
somos meninos
e falamos de boca cheia,
arrotamos, bufamos, tiramos meleca do nariz.
Espiamos meninas pelo buraco da fechadura,
somos meninos,
temos Playboy escondida no quarto.
Somos meninos
rimos alto, brincamos de bater,
somos meninos
e andamos de bicicleta,
corremos, pulamos,
empurramos, caímos, nos ralamos,
não choramos.
Somos meninos e brigamos,
na escola, na rua, no playground.
Já fomos expulsos da sala, já levamos advertência.
Somos meninos, adoramos educação física e matemática,
detestamos português e a professora caquética.
Somos meninos
e não resistimos aos seus mistérios,
Somos meninos
e não dizemos não (nunca).
Somos meninos e nos apaixonamos
pela garota cujos seios são os primeiros a despontar,
tão cheios,
e as curvas as primeiras a rebolar,
mas damos o primeiro beijo na menina magricela
de parca beleza, feia mesmo.
Somos meninos e enrabamos galinhas na roça.
Somos meninos e soltamos pipa na praia.
Somos meninos e subimos em pé de pau.
Somos meninos e jogamos futebol.
Somos meninos e fazemos coisas-de-meninos.
Somos meninos e não fazemos coisas-de-meninas,
nem permitimos que elas façam as coisas-de-meninos.
Quebramos braço, perna, pé, testa, cabeça...
Levamos mil quinhentos e cinqüenta e onze pontos.
Somos meninos
e nossas mães partem com destreza
nossos cabelos molhados
enquanto bronqueiam, ralham, falam
ameaçam, batem.
Enquanto nos mandam ter juízo, cuidado, “vai com Deus”.
Somos meninos
e nossos pais nos levam a Fonte Nova, Maracanã, Mineirão
e nos ensinam qualquer coisa da mecânica do carro.
Somos meninos e queremos saber dos namoros de nosso irmão.
Somos meninos e lemos o diário de nossa irmã.
Somos meninos, não falamos de sentimentos.
Somos meninos, não choramos. (Não podemos)
Somos meninos, não temos medo.
Somos meninos,
entre as pernas temos um pinto
e mijamos em pé.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O Salto de Ícaro
Pai, veja, são os pássaros de novo. E quantas penas, pai! As penas caem, pai. São brancas, tão brancas. Como são macias, pai. São muitas, muitas, muitas, muitas, muitas...
Voar, pai? Como os pássaros?
- Ícaro, abre tuas asas, meu filho. VOA, Ícaro! VOA!
Voa e verás mar, terra, sol, céu, meu filho. Voa, Ícaro, que a vida te espera... Voa, filho, o labirinto não mais existe... Voa, Ícaro. Meu menino. Voa!
Flor, bicho, gente, meu filho.
O vinho quente descerá a garganta até inebriar-te. Mastigarás a textura da carne suculenta, o seco do pão, o doce da maçã, o amargo da azeitona. Sim, meu menino, teus olhos explodirão de tanta vida. Tanta vida, Ícaro, tanta vida. Teus pés afundaram em areia, lama, água, pedra. Tuas narinas aspirarão odores mil – salva, menta, hortelã, alecrim, alfazema... Verás a criatividade do homem. À noite, quando é escuro – não, o escuro da noite é lindo, filho meu, lindo – há estrelas e uma lua branca, branca. Ao dia, quando é claro – sim, filho, verás o claro – nuvens, nuvens, nuvens e um sol redondo, imponente. O barulho do mar, sem o eco do labirinto, é uma canção, meu filho, não um lamento. É um riso deslavado, não um consolo longínquo. Teus pensamentos não te assustarão mais, juro-te. Teus braços e tuas pernas passearam pelo universo infinito. Abraçarás, na tua juventude, o mundo e agarrarás com tamanha força e eu rirei, como rirei de ti, meu filho! Gargalharei ao ver tua face sob a vida, tua face vitoriosa, teu sorriso infantil, teus cabelos ao vento. Sim, sim, sim. Dançarás. Dançarás, sentindo cada pedaço de teu corpo, dançarás até tuas juntas doerem e doerem e não se cansarás jamais. Fora do labirinto, serás Deus, meu menino. Esquecerás, sim, esse odor fétido de carne apodrecida... Já te disse, teu nariz não terá tempo... Ah, meu filho! Sentirás pele tão quente quanto a tua a roçar-lhe o corpo, num toque de mãos, num estalar de lábios que se encontram numa eternidade ínfima de tempo. Estrelas estourarão e cairão do céu, sim, sim, meu filho. Acredites, não ria de mim, seu tolo... Quando isso vier a acontecer, dar-me-ás razão... Ícaro! Ver-te-ás num reflexo de fonte qualquer... Conhecer-te-ás... Como és lindo, meu filho. Como és lindo. Tu foste feito para o mundo fora do sofrimento deste maldito labirinto, és de Apolo, Dionísio, Zeus? Não sei, meu filho. És da Liberdade, Deusa mãe!
Voa e verás mar, terra, sol, céu, meu filho. Voa, Ícaro, que a vida te espera... Voa, filho meu, o labirinto não mais existe... Voa, Ícaro. Meu menino. Voa!
- inspiração: peça-espetáculo "Labirintos", estava em cena no Teatro Vila Velha.
sábado, 30 de agosto de 2008
Augusta e seu manto
Lembrava e se detestava. Amargava cada ponto dado no conserto. Era difícil. Em tempos, as mãos iam rápidas, enfurecidas, desenhando uma costura agoniada; noutros iam calmas, coerentes, ponto-pós-ponto.
O som do pano rasgando em memória doía-lhes os ouvidos, som que outrora não escutara.
Fora ela própria que rasgara o que era dela. Sabia e não negava. Com as próprias unhas de tesoura, em desespero, ou em qualquer outra paixão inconseqüente.
Era vermelha a linha. A cor não se escolhe. Ou melhor, tinha sido escolhida na não-escolha.
E aqueles olhos a lhe cercar. Eram fantasmas que lhe assombravam. Tinha (tanto) medo.
O manto jamais seria o mesmo. Gostaria de se banhar novamente no mesmo rio, mas o rio passa. Mas ali, ali não era um rio, era um lago, um pequeno lago, tão pequeno.
Augusta vestiria seu manto remendado e tentaria esquecer. Mas as linhas vermelhas estariam ali. Por mais que ninguém as visse, Augusta viria. E se esquecesse um dia, noutro lembraria. E doer-lhe-ia. Seu manto branco...
Crime e castigo. Responsabilidade. “Mea culpa. Mea maxima culpa” Ah, Augusta, cresça, pequena.
sábado, 26 de julho de 2008
Fraternalmente n'alma
Passava a cheirar estranheza, que não tinha quem lhe tirassem tal fedor (perdoando-me os que lêem).
Viam-se os fios de própria marionete.
Pois, ora, vinha assim com rebolos forçados, numa maquilagem pesada, 2 números de sapato maior que o usual. Diz xis. Repete a moça, o moço. Fora o que não conto, já bastando.
Ou são os olhos meus?
Não me atrevo a pergunta certeira feito pedra em passarinho de moleque bom de badogue.
Quem me sou pra vir arranhar a sua casca com quaisquer letras em palavras?
Afinal, a beleza está em quem vê ou no mundo que se mostra? A feiúra, em mim ou em ti?
Não sabendo, pois, a resposta regado a um bom vinho seco torpe de não pertencimento agravado por uma perda, me atrevo apenas e unicamente ao máximo da denúncia em palavras que ouso dizer herméticas, sem senso ou comum.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Primeira Caçada

Em silêncio místico, o carro prateado puxado por duas corsas em galope percorria as reentrâncias da terra – vales, morros, planícies, depressões. A aura, inda fina, da Lua crescente guiava o avanço, como lanterna, na penumbra da noite vasta.
Após a fenda rochosa do largo monte, abria-se um campo de pelagem verde-esmeralda, em que se deitava um riacho plácido. Algumas oliveiras despontavam do chão. Adiante, as árvores iam se condensando, sobrepondo-se umas às outras.
As corsas pararam. Do carro, saltou Deusa, dona de si. O solo aos seus pés estremeceu n’alma: quem o pisava não era rainha, não era esposa, não era amante, não era mãe; quem o pisava não era filha, não era irmã. Era a Virgem Caçadora, Ártemis, em sua primeira caçada.
Caminhou em direção ao riacho. Abaixou-se de sua grandeza e, ajoelhada, ouviu as águas que lhe segredavam o que já sabia. Novamente em pé, a brisa noturna sussurrou-lhe sua certeza, certeza de caçadora experiente. Ah, autonomia. Sua caça estava próxima.
Uma túnica branca presa por um pedaço rubro de pano cobria-lhe o corpo bem formado. Trazia a aljava sobre a espádua e o arco em sua mão direita. Fitas de couro amarravam as sandálias aos seus calcanhares. À cintura, uma bolsa de caça. Sob a cabeça, uma pequena tiara em que se distinguia o quarto crescente.
Seu olhar fixou-se na floresta, num semblante imperturbável. Ah, individualidade.
Os traços de sua face refletiam pura essência. O rosto era largo, mas bem equilibrado. Não tinha olhos passivelmente grandes. Eram pequenos, castanhos e sinceros; eram olhos de águia, olhos de coruja, de ver ao longe. Eram olhos de presa, veado vencido, lebre abatida. Seus lábios, pois, não eram intumescidos de lascívia fútil. A boca era fina, felina, faca de curtume.
Não mais que de repente, Diana pôs-se a correr. Na marcha firme, viam-se os músculos rijos e definidos de suas pernas, um quê de homem, inexistente. Ah, liberdade.
O cabelo voava ao vento frio. De tão sem beleza, de quão belo. Era de um castanho cor de tronco, de fios finos, fortes e ondulados. Divisavam-se tranças perdidas, feitas por mãos precisas e ligeiras, que ora pendiam a face, ora corriam aos ares.
A Arqueira adentrou a floresta, passando pelos cedros, mognos, ninfas, demônios; saltando troncos caídos e rochas secas. O instinto de caçadora guiava-lhe à presa. Os passos eram firmes. Ia nua, virgem, a sua primeira caçada.
Numa clareira, a Pura parou. Ali, ali, sim. Um grande veado, entre as ramagens de um pequena árvore. De cabeça baixa, quase se podia ouvir o capim sendo arrancado da terra e seus dentes triturando-o. Num pré-êxtase, Diana ofegou vitoriosa, sentindo-se total. Da aljava, puxou uma seta. Retesou o potente arco; mirou o animal em seu peito.
O bicho, num estremecimento do instinto, ergueu a cabeça. No movimento, os chifres ressoaram no ar. Os olhos varreram as árvores, o coração pulsante. A sobrevivência sentia um doce veneno mortal que o ar trazia. Ali, ali, sim. Em mármore banhado pelo luar, sua Senhora diante de si. E contemplou a durante a eternidade. Sua honra. Era leal à Dona.
Olho contra olho, num duelo de castanho.
Diana contraiu-se num todo. O arco era um membro de seu corpo, igualmente contraído. O vento não ousava tocar-lhe o cabelo, as pálpebras não mexiam. Na brancura de sua pele, virgem sim, mas que se diga livre-selvagem (ah), em seu colo feminino e seus braços, um estirado, outro flexionado, o desenho de sua força. Era um mármore sem escultor.
O bicho apenas olhava, numa leve apreensão, mas entregando-se, aberto o peito, coroado de grinalda, àquela rígida e poderosa. Sentiu o leite materno descer-lhe a goela e o ar quente sair-lhe pelas narinas dilatadas. Havia um grito dentro de si, um Hino à Ártemis. Fogo queimava-lhe as entranhas. Fogo não menos quente que aquele contido na Dama a sua frente. E ambos sabiam do fogo do outro e era o fogo que os unia. Fogo que ardia e tinha que arder. Fogo tenro.
Ártemis dardejou.
A seta, filha de Hefesto, disparou na escuridão em direção ao alvo. A ponta afiada de pura prata; a haste de madeira branca; as penas de garça. Cortava o ar em sua viagem, num silvo longo e inaudível. Ia sorrateira, falo feminino. A haste se contorcia em segredo. Toda criação do mundo em seu caminho. Zéfiro cedeu passagem e fechou os olhos.
O brilho da ponta da flecha tirou o bicho de seu transe. As pupilas num instante dilataram-se, as patas traseiras contraíram-se sobre o solo. Tinha também a lealdade ao ser-veado. Era a aranha sobrevivência que arranhava o por dentro. Na lealdade a si, a lealdade a Ela-Deusa. Bicho, ruge, brame! Bicho, foge! Saltou.
Ártemis, a Infalível, conhece seus filhos. Ah, sim, Infalível.
A seta atingiu o coração da aranha do veado. Infalível. Sua ponta perfurou, na criação do homem e da mulher, a pele-couro do animal, após passar-lhe os pêlos sedosos. Foi dilacerando a pele-couro, a proteção, a maior barreira; Hímen. Adentrou, então, raio de Zeus; matou, então, estalar de língua.
Um grosso e escuro sangue escorreu pelo peito do animal. A seta fincada em si. Tombou em pleno salto, sem espasmos – herói.
Clímax! Diana em júbilo.
Iria, agora, avançar a sua vítima. Beijar-se-lhe-ia a face? Tapar-se-lhe-ia os olhos? Abençoar-se-lhe-ia? Com faca, arrancar-se-lhe-ia o couro? Caçada concluída, primeira da Deusa.
A Virgem-Virgem Caçadora, não, agora era a Virgem Caçadora. Diana!
Ártemis!
terça-feira, 22 de abril de 2008
Como balão
Inspirar lenta. Inspirar profunda.
Encher os pulmões de ar.
Cada pequeno espaço, encher de ar.
Inspirar. Tudo por dentro se transformar em ar.
Inspirar. E que o ar transcenda.
Inspirar. Permitir-se que o ar transcenda.
Inspirar. A carne virar ar. O sangue virar ar. Brisa interna.
Inspirar. Inspirar. Inspirar.
Quando tudo for ar, explodir.
E ser ar.
